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Torre entrevista | Daniel Sousa, o verdadeiro Homem-Polvo dos Quadrinhos

O mercado de quadrinhos brasileiro vem se consolidando cada vez mais nos últimos anos, principalmente quando pegamos a área independente do nicho, vemos que novos escritores e desenhistas surgiram com ótimos trabalhos. E suas publicações têm ido de vento e popa. O que é o caso do Daniel Sousa.

O Daniel Sousa é morador de Campinas/SP, é designer gráfico e ilustrador, e encarou o desafio de publicar suas HQS em 2018, quando lançou a hqs Entrespaço e O Bar do Pântano. Como um verdadeiro Homem-Polvo, ele fica em diversas frentes com os mais variados projetos: é o artista das webcomics Niilismo Apologético e Rascunho do Inferno, capista do zine do podcast Benzina, está em campanha no Catarse com Histórias para (NÃO) Dormir, esse ano ainda começam mais duas campanhas: Antologia VHS  e Tachyon (que você pode conferir uma prévia no site Tapas), é presença confirmada no Artist Alley da CCXP 2019, fica de frente à loja virtual do Cavernna e ainda encontra tempo para ser paizão de quatro crianças. O homem não para, mesmo assim conseguimos trocar uma ideia com ele para o Dá o Papo Comics:

1 – A campanha no Catarse de Histórias para (NÃO) Dormir é um sucesso (até aqui já estava com 98%). Como surgiu a ideia e o convite para participar dessa antologia?

Daniel: O bacana desse projeto é justamente a vontade de quadrinistas iniciantes de enfiar as caras na produção de quadrinhos. A ideia veio de uma conversa entre o Lucas e o Rafael em um grupo de discussão, e em pouco tempo eles já tinham organizado tudo. A inspiração na obra do Lovecraft foi o ponto em comum entre os autores, e daí o projeto caminhou. Além disso, foram feitos alguns convites para pessoas que já tem um nome estabelecido nas hqs, como o Eric Peleias, Edson Bortolotte, Ede Galileu, e isso foi muito importante não só para ajudar a chamar a atenção do público, mas também para estimular os novos artistas. Essa vontade de colaborar só reforça o que costumo afirmar: Que a comunidade de quadrinistas independentes aqui no Brasil é muito unida. Eu fui convidado meio que em cima da hora para participar do projeto. O artista que inicialmente ilustraria o roteiro do Eric precisou se afastar do projeto, e foi nesse momento que eu fui convidado. Eu já conhecia o Lucas, e ele já havia me convidado anteriormente, mas eu não pude aceitar por estar envolvido em outros projetos, mas o segundo convite bateu certo com o meu cronograma, e eu fiquei feliz em conseguir colaborar.

Tenho ajudado também com a experiência que tive com minhas hqs no Catarse para ir arredondando as pontas da campanha, mas o mérito é todo deles, eu só faço o spam. Mas sim, alcançar praticamente os 100% da meta antes da metade da campanha é um feito bem bacana, e a intenção é continuar arrecadando para oferecer aos leitores ideias que ficaram inicialmente de fora por motivos de orçamento. Então quem está acompanhando o projeto pode esperar metas estendidas com algumas novidades, incluindo uma hq extra com um roteirista experiente e um quadrinista novo, mas espetacular! E pra quem ainda não apoiou, sugiro que dê uma passada na página da campanha no Catarse. Muita recompensa bacana, inclusive um pacotão de hqs anteriores dos artistas envolvidos e arte original.

2 – A história O Chamado de Deus é sua com o roteiro do Eric Peleias. Como foi essa dobradinha e o que pode adiantar da história?

Daniel: O roteiro do Eric é – e não podia ser diferente – excelente. Por se tratar de histórias curtas (7 páginas), espera-se pouco espaço de manobra para se contar uma boa história, e o Eric contornou isso com maestria. Sem abrir mão do horror e suspense, a trama é bem costurada e tem uma carga dramática que dificilmente alguém conseguiria desenvolver em uma narrativa curta como esta.

Tanto o Eric quanto eu estamos em cronogramas individuais apertados, e eu ataquei o roteiro já finalizado. Mas justamente pela qualidade das direções do Eric no roteiro, pude ilustrar as páginas de uma vez só. Mantivemos nossa comunicação mas tudo foi resolvido sem muitas intervenções de um lado ou de outro, e fiquei contente com o resultado. E mais importante para mim, o Eric também.

Sobre a história em si, sem entregar os spoilers, se passa em um hospital psiquiátrico e tem como ponto central os limites entre a loucura e a sanidade – tema sempre presente na produção de Lovecraft. Dizer mais do que isso já é entregar a história.

3 – A gente vê uma galera seguindo muito na vibe de H.P. Lovecraft. O quadrinho nacional bebe muito dessa fonte, o que é natural, pois Lovecraft foi um gênio sem sombra de dúvidas. Quando surgiu a ideia de Histórias para (NÃO) Dormir, rolou algum receio do tipo: “ah mais uma HQ sobre isso” ou se tornou um desafio de fazer algo diferente do que já tinha sido apresentado?

Daniel: Sem dúvidas, a obra do Lovecraft é um tema que sempre foi muito explorado pelos autores de horror e suspense. Com a maioria de suas obras passando para domínio público essa produção só aumentou, e isso tem seus lados bons e ruins. Se por um lado pode parecer um atalho rápido para se produzir material de horror, por outro é um bom ponto de partida e sempre um porto seguro. O fato é que a produção de ficção costuma passar por fases: vampiros, zumbis, worldbuilding medieval, cyberpunk… Acho que o que vale é o mérito do autor em desenvolver uma boa história e tentar se destacar no meio de tantas publicações.

Além disso, é um conteúdo que tem seu público cativo. Se não houvesse saída para esse tipo de material, certamente não veríamos tantas publicações do gênero. Então a questão não é se perguntar “ok, vou fazer mais uma hq sobre esse tema?”, e sim “ok, como posso contar uma história bacana sem cair no lugar comum?”. E sob essa ótica, eu acredito que tivemos sucesso.

4 – O Catarse é uma baita plataforma para artistas independentes e até editoras. E ultimamente temos visto muitas campanhas, principalmente de julho para cá. Como agir para uma campanha não “canibalizar” outra?

Daniel: Antes de mais nada é preciso ressaltar que eu sou cria justamente dessa geração do crowdfunding, hahaha. Da publicação de Entrespaço no ano passado até o final deste ano terei participado de pelo menos 6 campanhas, então esse é o único caminho que utilizei para conseguir publicar minhas hqs.

Eu vejo o financiamento coletivo como um grande marketplace para quadrinistas independentes. Conheci o trabalho de muita gente ao navegar pelas campanhas em andamento, da mesma maneira que há 20 ou 30 anos eu folheava títulos em bancas em busca de algo para ler, e sei que muitos dos meus apoiadores chegaram até meus títulos dessa mesma maneira. Então eu simplesmente não tenho como achar ruim que haja cada vez mais títulos disputando apoio. Isso é sinal que há cada vez mais gente com possibilidade real de ter seu trabalho publicado. O aumento no número de projetos no segundo semestre é algo natural. A CCXP acontece em Dezembro, e é o evento mais visado pelos quadrinistas, então uma concentração de novos projetos nesse período é inevitável já que o processo de seleção prioriza artistas que tenham algo de novo para o evento. Este ano, especificamente, não tivemos o FIQ ou a Bienal de Curitiba para dar vazão a lançamentos ainda no primeiro semestre, então isso influenciou ainda mais. Talvez não seja o ideal, mas estamos longe de estar em uma situação complicada. Ano passado financiei a publicação de duas hqs, uma no primeiro e outra no segundo semestre. A quantidade de apoiadores foi praticamente a mesma. Então eu não quero apresentar uma solução definitiva para essa situação, mas talvez a questão não seja a do autor disputar um possível apoiador com outros autores, e sim pensar em como trazer novos leitores para esse mercado, independente se a campanha acontece em Maio ou em Setembro.

Mas claro, existem outras soluções. O apoio recorrente é uma delas, e nos últimos meses tenho estudado e me preparado para utilizar essa variação de financiamento coletivo como maneira de disponibilizar meus títulos. Gostaria de já estar com isso no ar, mas ficará para o ano que vem.

Mas esse é um daqueles problemas que eu fico feliz em ter para resolver, hahaha. Pior seria se não houvesse esse tipo de plataforma e a produção precisasse ser bancada inteiramente do próprio bolso. Aí sim estaríamos ferrados, pois a quantidade de gente publicando de maneira independente é cada vez maior, e o alcance seria infinitamente menor. O crowdfunding é mais do que uma vaquinha para você bancar sua publicação. É uma ferramenta que cria todo um mercado de leitores. Vale a máxima: em tempos de crise, tem gente que chora e tem gente que vende lenço.

5 – Entrespaço foi a sua estreia nos quadrinhos. Ela tem um peso particular de um momento de sua vida. Já foi lançada até em inglês, sendo bem elogiada por várias pessoas. Como você vê Entrespaço ainda?  Ela chegou onde você queria ou ainda pode alcançar voos maiores?

Daniel: Eu tento não olhar muito para ela hahaha. Sim, tive um retorno muito legal por parte do público com essa hq, e isso me deixa feliz porque o texto é bem pessoal, a metáfora do astronauta é meio que o meu manifesto em forma de quadrinhos.

Artisticamente falando? Foi meu primeiro trabalho em arte sequencial, e se por um lado eu gostei do resultado estético, do outro a narrativa visual me incomoda. E o meu traço estava bem cru nesse trabalho. Tenho consciência que evoluí de lá para cá, mas ainda preciso melhorar bastante alguns aspectos do meu desenho.

Para um primeiro trabalho, acho que ela chegou inclusive mais longe do que eu imaginava. O lançamento no FIQ 2018 foi excelente – foi meu primeiro evento, lançando minha primeira hq – e até hoje encontro leitores que me puxam de lado para contar o quanto se identificaram com a publicação.

Hoje estou com a tiragem dessa hq quase esgotada (espero que sobrem algumas edições para a CCXP19), mas ela está disponível em formato digital na Comixology em inglês (como Interspatial) e português.

6 – Você está presente na Antologia VHS, que reúne uma galera muito boa e está sendo bem aguardada. O que poderia adiantar sobre VHS e sobre a sua história?

Daniel: Cara, poder participar da VHS com esse tanto de gente boa é uma honra pra mim. Para quem não conhece o projeto, é uma coletânea com quase 300 páginas de quadrinhos, organizada pelo Rodrigo Ramos e pelo Fernando Barone e a ideia é homenagear a trasheira dos filmes de terror da década de 80.

A dupla conseguiu juntar uma equipe de primeira pra essa publicação, e eu fiquei chocado quando soube que iria ilustrar um roteiro do demente Victor Freundt, do qual sou fã incondicional. Aliás, eu estou verdadeiramente preocupado com o resultado dessa hq. O roteiro do Victor pega não em só uma, mas em pelo menos uma dúzia de feridas diferentes, e tem um desfecho monstruoso. Estou seriamente considerando contratar um guarda-costas com o resultado das vendas hahaha.

Falando sério, tem sido uma experiência muito boa trabalhar com o Victor nesse projeto. Em Entrespaço eu escrevi e desenhei uma hq. Com O Bar do  Pântano e Histórias para Não Dormir, tive a oportunidade de trabalhar com roteiristas, o Tazzo e o Peleias, e foi um aprendizado pela dinâmica nova. Com o Victor, a diferença é que ele também é um ilustrador, e a dinâmica muda novamente no vai e vem das páginas. O aprendizado tem sido incrível.

7 – No final do ano passado, você e o Felipe Tazzo lançaram o Bar do Pântano. Quando voltaremos a visitar o bar no inferno?

Daniel: Este ano o Bar do Pântano foi indicado, para nossa surpresa, como um dos melhores lançamentos independentes de 2018 do Troféu Angelo Agostini, e não dá pra deixar isso passar em branco. Não levamos o prêmio, e esperamos novamente não levar em 2021, mas para isso precisamos publicar o próximo volume em 2020. Então SIM, veremos mais material. Os compromissos com as duas coletâneas e os dois títulos solo que eu me comprometi a lançar este ano acabaram adiando um pouco os planos, mas não confirmo e  não nego que 2020 possa trazer uma surpresa ou outra. Desde que começamos a pensar nessa hq o Tazzo aproveitou para elaborar todo um universo que pudéssemos ter de base para futuras histórias, e foi nesse vai e vem de conversas pelo WhatsApp e um ou outro encontro movido à base de cerveja que a segunda história presente na revista surgiu.

Então o que temos é um monte de regras, situações, personagens e possíveis acontecimentos que estão fermentando em algum lugar obscuro de nossas mentes, e que em breve serão organizados para um próximo volume do Rascunho do Inferno, que é como carinhosamente decidimos chamar esse universo que criamos.

8 – E aquele papo de animação do Bar do Pântano que surgiu no Twitter?

Daniel: Pois é, temos uma animação em andamento! O Tazzo é um cara ambicioso e eu sou um mosca morta. Pense em Pinky e Cérebro. Os planos para esse universo não estão limitados unicamente às hqs, e isso é algo que o Tazzo tem em mente desde que começamos a conversar sobre esse projeto. A ideia sempre foi expandir isso para webcomics, podcasts, animação, literatura e qualquer outra mídia que a gente puder perverter o suficiente.

No caso específico da animação, no momento não estou tão envolvido com o processo quanto gostaria de estar. O roteiro gira em torno da primeira história da revista, e o Tazzo tem contado com a ajuda do incrível Daniel Ete, também conhecido como baixista do Muzzarelas, para desenvolver a parte visual da coisa. Mas é um processo demorado, e assim que os compromissos com essa pilha de quadrinhos que estou envolvido terminar, volto para dar uma força na animação (e nas outras frentes desse plano). Mas o que tenho visto de todo o processo já está deixando bem claro que vai ser algo insano.

9 – Recentemente, você publicou no Tapas, Tachyon – prologo. Com a descrição de ser uma “hq semi-biográfica que pode ou não conter elementos de verdade”. A HQ ainda vai entrar em campanha no Catarse, mas poderia adiantar alguma coisa sobre Tachyon?

Daniel: Tachyon é uma mistureba de autobiografia, misticismo, vidas passadas, referências artísticas que eu preciso colocar para fora do meu sistema e mais um monte de ideias malucas. Eu passo boa parte do meu tempo acordado absorvendo informações, seja através de notícias, conversa, terapia, twitter, o meu vizinho maluco que insiste em bater boca com o meu cachorro (spoiler: ele ainda não conseguiu ganhar uma discussão)… tem muita merda acontecendo nesse mundo e é um desperdício isso não ser aproveitado em uma boa história. A trama, no final das contas, é uma espécie de exorcismo pessoal. Não no sentido clássico – eu não escrevo terror – mas no sentido de resolver pontas soltas da minha vida, colocar isso em pratos limpos e poder seguir em frente. Então o que você vai ler, não cronologicamente, é uma história de nascimento e morte. Enquanto Entrespaço foi uma espécie de foda-se para interferências externas em minha vida, em Tachyon eu mando o mesmo foda-se para as interferências internas, ou seja, é hora de crescer e entender o quanto você mesmo é responsável pelas suas derrotas e suas vitórias. Mas se você me conhece, sabe que eu não vou fazer isso de uma maneira linear ou, sei lá, didática.

Acredito que seja um trabalho que vai atender aos leitores de Entrespaço, que pedem por mais material nessa linha, mas que ao mesmo tempo tem uma proposta diferente o suficiente para não parecer mais do mesmo. E sim, eu sei que não falei quase nada. É surpresa. Leiam o prólogo e partam do princípio que aquilo é só o comecinho.

Arte para o podcast Benzina.

10 – Você tem histórias autobiográficas, terror, “horror-fantástico-maluco” como Bar do Pântano… qual seria um tema ou gênero que você gostaria de abordar diferente desses? Algo mais político ou mais “faroeste”, futurista…

Daniel: Alguns temas eu prefiro trabalhar com um roteirista. Terror é um deles. Eu não me vejo escrevendo terror em um futuro próximo, acredito que ainda não consegui pegar o jeito para esse tipo de narrativa. Por isso, os meus 3 últimos trabalhos, que são nessa linha, contam com o roteiro de outras pessoas (e posso dizer que pelo menos mais um está nos planos para o ano que vem, já que fui pego de surpresa com um convite bem bacana). Se formos falar de quadrinhos que eu escrevo, aí sim tenho minhas predileções. Futurista, posso dizer que com certeza sim. Política? Claro, mas não no sentido panfletário. É preciso lembrar que política não é (ou não deveria ser) o jogo de poder que vemos em Brasília, mas sim defender ideais que contribuam para a sociedade. E isso pode ser feito tanto através de alegorias quanto numa abordagem mais direta. No final do dia, o que importa é você se sentir à vontade para escrever sobre o assunto.

11 – Eu acredito que estamos vivendo um momento muito bom nos quadrinhos nacionais. Diversos artistas talentosos, uma galera boa se abraçando para divulgação, até mesmo os chamados “grandes sites” têm olhado diferente para o movimento. Mas, uma vez o Aléssio Esteves me falou, e concordo com ele, que não seria uma Era de Ouro essa atual. Porque já tínhamos uma galera trampando antes, e trampando muito bem. O que você acha desse momento? É o momento certo para fazer quadrinhos no Brasil, que se tornará mais duradouro, ou é apenas uma fase que tem uma galera “surfando”?

Daniel: Cara, o momento atual é muito bacana. Minha carreira como quadrinista é recente, mas eu acompanho o cenário nacional a tempos, e a coisa só tem embalado. Mas eu concordo com vocês. Definitivamente estamos colhendo os frutos desse pessoal que praticamente pavimentou na marra o caminho para as hqs independentes. Hoje temos ferramentas de financiamento coletivo que não existiam a 10 anos, e isso facilita imensamente o processo de publicação. Redes sociais, grupos de discussão, tudo isso ajuda muito não apenas para mostrar o seu trabalho, mas também para se relacionar com outros quadrinistas e com o público. Tive muitos apoiadores nos dois extremos do país, um alcance que eu jamais teria se não fosse por essa facilidade. Mas todo o mérito é desse pessoal que está fazendo quadrinhos desde antes dessas ferramentas estarem disponíveis para a maioria do público. Esses sim são os verdadeiros heróis.