É inegável que Clint Eastwood é um marco na história do cinema e do gênero de western, tal como Sergio Leone e a parceria de ambos na trilogia dos dólares. Antes atuando apenas como ator e com o objetivo de garantir maior liberdade criativa em suas obras, Eastwood começou a dirigir seus filmes a partir dos anos 70 – o que lhe garantiu ganhar quatro vezes o oscar, duas vezes como melhor diretor e duas vezes de melhor filme. Hoje, aos 91 anos, Clint Eastwood dirige e protagoniza Cry Macho, seu mais novo lançamento para os cinemas.
Cry Macho: O Caminho para Redenção é a adaptação de um livro escrito por Richard Nash nos anos 70. Nash tinha idealizado fazer com que a trama literária fosse, na verdade, um roteiro cinematográfico e fosse transformado em filme eventualmente, mas em diversos momentos o projeto nunca foi adiante. Felizmente conseguiram, finalmente, adaptar esta trama para as telas – mesmo que tenha diferenças evidentes entre as duas mídias.
”Cry Macho conta a história de Mike Milo (Clint Eastwood), criador de cavalos e ex-astro de rodeio que, por precisar de um trabalho, aceita levar o filho de um ex-patrão em uma jornada do México aos Estados Unidos. Obrigados a realizar a jornada por estradas secundárias, enfrentam uma viagem desafiadora e criam elos surpreendentes.”
Na trama, que se passa em 1970, acompanhamos Mike Milo, um homem que antigamente era uma estrela de rodeio até sua carreira terminar após um acidente que o deixou com uma lesão nas costas. Depois de toda sua jornada, decide ser criador de cavalos e levar uma vida tranquila. Após perder o seu emprego, Mike aceita a missão dada por seu ex-chefe de ir para o México resgatar o seu filho, Rafa, que convive com uma mãe abusiva e extremamente problemática. Rafa, interpretado por Eduardo Minett, é um garoto que não segue nenhuma regra e gosta de participar de rinhas de galo com o seu animal, chamado de Macho.
Quando o caminho de ambos se cruzam, a jornada se inicia e o longa começa a adotar elementos de um road movie, onde Mike deve se relacionar com o jovem Rafa e compreender todas as suas diferenças e particularidades – semelhante ao que acontece em Gran Torino e até mesmo em Logan. Assim, se inicia uma jornada de autoconhecimento, descobertas e amizade por parte dos dois personagens.
O ponto central da história é o fato de que Clint Eastwood está nos seus noventa anos: sua idade gira em torno de todos os elementos do filme e se estabelece como o principal argumento do roteiro. Aqui, Eastwood reconhece isso e decide explorar os temas já comuns em seus filmes anteriores, entretanto com a fragilidade humana e o seu envelhecimento como o centro de tudo. Por conta disso o filme apresenta um ritmo lento e caminha da mesma forma que o ator, explorando cada aspecto do ponto central e da relação entre ambos os personagens.
Clint decide trabalhar uma certa reflexão de toda a sua filmografia, desconstruído aspectos antigos de masculinidade – inclusive, a respeito da palavra ‘macho’ em um diálogo no meio da trama – e trazendo pensamentos acerca do futuro, analisando relacionamentos, a importância das pessoas ao seu redor e sobre o tempo, este que nos cerca vinte e quatro horas por dia. Tudo isso feito com delicadeza e deixando a violência de lado, sendo esta presente apenas como alívio cômico através do galo chamado Macho. Por conta disso o ritmo do filme é lendo e paciente, diferente dos longas de western presentes na filmografia do autor.
Além disso, a dupla que protagoniza o longa apresenta uma química excelente e funcionam em conjunto. Entretanto, o roteiro não trabalha bem o desenvolvimento de ambos e se beneficia apenas de situações convenientes para que haja interação entre eles. Assim fica evidente que o objetivo do longa não é desenvolver sua história ou se apresentar como uma trama envolvente para o telespectador, e sim é homenagear toda a carreira de Clint Eastwood através deste personagem em tela – e talvez seja este o principal defeito do filme.
Por si só, o filme não funciona como uma trama isolada e se apoia em toda filmografia de Clint, ou seja, você precisa conhecer sua carreira para compreender a mensagem que o longa quer passar e sua homenagem. É um filme restrito aos fãs apenas como uma carta de amor a eles, com elementos de todos os personagens anteriores de Clint e uma desconstrução dos mesmos através de diálogos que procuram refletir sobre eles. Ao se analisar Cry Macho de forma isolada a isto, observa-se um filme com uma história clichê, um ritmo completamente lento que cansa o telespectador e personagens que não cativam.
O que, então, acaba tornando Cry Macho bom? A essência de Clint Eastwood, simplesmente isso. O que realmente é importante no decorrer do longa é a trajetória do autor até então, não a trama do filme ou os personagens presentes nele. Aqui, Eastwood procura marcar mais uma vez o seu legado nestes noventa e um anos de vida no audiovisual por meio de uma despedida marcante. Mesmo que o ator/diretor afirme que não pretende se aposentar, não se pode negar que o longa apresenta um ‘ar’ de adeus, de forma que homenageia toda a trajetória de Clint até então.
Então, é bom?
Cry Macho: O Caminho para Redenção apresenta uma trama simples mas que serve como uma bela homenagem a todo caminho trilhado pela filmografia de Clint Eastwood, assim se consolidando como um presente aos seus fãs e aos seus filmes. No fim, a sensação que o telespectador tem é de que Cry Macho é uma carta de amor a quem acompanha a trajetória de Eastwood.
Enquanto Mike trilha por sua redenção durante o desenrolar da trama e deixa seu legado espelhado no garoto que o acompanha, Clint Eastwood deixa toda a sua trajetória estampada neste filme e marca o seu legado na história do cinema mundial.
Nota: 4/5 – Ouro