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Torre entrevista | Daniel Sousa, o verdadeiro Homem-Polvo dos Quadrinhos

O mercado de quadrinhos brasileiro vem se consolidando cada vez mais nos últimos anos, principalmente quando pegamos a área independente do nicho, vemos que novos escritores e desenhistas surgiram com ótimos trabalhos. E suas publicações têm ido de vento e popa. O que é o caso do Daniel Sousa.

O Daniel Sousa é morador de Campinas/SP, é designer gráfico e ilustrador, e encarou o desafio de publicar suas HQS em 2018, quando lançou a hqs Entrespaço e O Bar do Pântano. Como um verdadeiro Homem-Polvo, ele fica em diversas frentes com os mais variados projetos: é o artista das webcomics Niilismo Apologético e Rascunho do Inferno, capista do zine do podcast Benzina, está em campanha no Catarse com Histórias para (NÃO) Dormir, esse ano ainda começam mais duas campanhas: Antologia VHS  e Tachyon (que você pode conferir uma prévia no site Tapas), é presença confirmada no Artist Alley da CCXP 2019, fica de frente à loja virtual do Cavernna e ainda encontra tempo para ser paizão de quatro crianças. O homem não para, mesmo assim conseguimos trocar uma ideia com ele para o Dá o Papo Comics:

1 – A campanha no Catarse de Histórias para (NÃO) Dormir é um sucesso (até aqui já estava com 98%). Como surgiu a ideia e o convite para participar dessa antologia?

Daniel: O bacana desse projeto é justamente a vontade de quadrinistas iniciantes de enfiar as caras na produção de quadrinhos. A ideia veio de uma conversa entre o Lucas e o Rafael em um grupo de discussão, e em pouco tempo eles já tinham organizado tudo. A inspiração na obra do Lovecraft foi o ponto em comum entre os autores, e daí o projeto caminhou. Além disso, foram feitos alguns convites para pessoas que já tem um nome estabelecido nas hqs, como o Eric Peleias, Edson Bortolotte, Ede Galileu, e isso foi muito importante não só para ajudar a chamar a atenção do público, mas também para estimular os novos artistas. Essa vontade de colaborar só reforça o que costumo afirmar: Que a comunidade de quadrinistas independentes aqui no Brasil é muito unida. Eu fui convidado meio que em cima da hora para participar do projeto. O artista que inicialmente ilustraria o roteiro do Eric precisou se afastar do projeto, e foi nesse momento que eu fui convidado. Eu já conhecia o Lucas, e ele já havia me convidado anteriormente, mas eu não pude aceitar por estar envolvido em outros projetos, mas o segundo convite bateu certo com o meu cronograma, e eu fiquei feliz em conseguir colaborar.

Tenho ajudado também com a experiência que tive com minhas hqs no Catarse para ir arredondando as pontas da campanha, mas o mérito é todo deles, eu só faço o spam. Mas sim, alcançar praticamente os 100% da meta antes da metade da campanha é um feito bem bacana, e a intenção é continuar arrecadando para oferecer aos leitores ideias que ficaram inicialmente de fora por motivos de orçamento. Então quem está acompanhando o projeto pode esperar metas estendidas com algumas novidades, incluindo uma hq extra com um roteirista experiente e um quadrinista novo, mas espetacular! E pra quem ainda não apoiou, sugiro que dê uma passada na página da campanha no Catarse. Muita recompensa bacana, inclusive um pacotão de hqs anteriores dos artistas envolvidos e arte original.

2 – A história O Chamado de Deus é sua com o roteiro do Eric Peleias. Como foi essa dobradinha e o que pode adiantar da história?

Daniel: O roteiro do Eric é – e não podia ser diferente – excelente. Por se tratar de histórias curtas (7 páginas), espera-se pouco espaço de manobra para se contar uma boa história, e o Eric contornou isso com maestria. Sem abrir mão do horror e suspense, a trama é bem costurada e tem uma carga dramática que dificilmente alguém conseguiria desenvolver em uma narrativa curta como esta.

Tanto o Eric quanto eu estamos em cronogramas individuais apertados, e eu ataquei o roteiro já finalizado. Mas justamente pela qualidade das direções do Eric no roteiro, pude ilustrar as páginas de uma vez só. Mantivemos nossa comunicação mas tudo foi resolvido sem muitas intervenções de um lado ou de outro, e fiquei contente com o resultado. E mais importante para mim, o Eric também.

Sobre a história em si, sem entregar os spoilers, se passa em um hospital psiquiátrico e tem como ponto central os limites entre a loucura e a sanidade – tema sempre presente na produção de Lovecraft. Dizer mais do que isso já é entregar a história.

3 – A gente vê uma galera seguindo muito na vibe de H.P. Lovecraft. O quadrinho nacional bebe muito dessa fonte, o que é natural, pois Lovecraft foi um gênio sem sombra de dúvidas. Quando surgiu a ideia de Histórias para (NÃO) Dormir, rolou algum receio do tipo: “ah mais uma HQ sobre isso” ou se tornou um desafio de fazer algo diferente do que já tinha sido apresentado?

Daniel: Sem dúvidas, a obra do Lovecraft é um tema que sempre foi muito explorado pelos autores de horror e suspense. Com a maioria de suas obras passando para domínio público essa produção só aumentou, e isso tem seus lados bons e ruins. Se por um lado pode parecer um atalho rápido para se produzir material de horror, por outro é um bom ponto de partida e sempre um porto seguro. O fato é que a produção de ficção costuma passar por fases: vampiros, zumbis, worldbuilding medieval, cyberpunk… Acho que o que vale é o mérito do autor em desenvolver uma boa história e tentar se destacar no meio de tantas publicações.

Além disso, é um conteúdo que tem seu público cativo. Se não houvesse saída para esse tipo de material, certamente não veríamos tantas publicações do gênero. Então a questão não é se perguntar “ok, vou fazer mais uma hq sobre esse tema?”, e sim “ok, como posso contar uma história bacana sem cair no lugar comum?”. E sob essa ótica, eu acredito que tivemos sucesso.

4 – O Catarse é uma baita plataforma para artistas independentes e até editoras. E ultimamente temos visto muitas campanhas, principalmente de julho para cá. Como agir para uma campanha não “canibalizar” outra?

Daniel: Antes de mais nada é preciso ressaltar que eu sou cria justamente dessa geração do crowdfunding, hahaha. Da publicação de Entrespaço no ano passado até o final deste ano terei participado de pelo menos 6 campanhas, então esse é o único caminho que utilizei para conseguir publicar minhas hqs.

Eu vejo o financiamento coletivo como um grande marketplace para quadrinistas independentes. Conheci o trabalho de muita gente ao navegar pelas campanhas em andamento, da mesma maneira que há 20 ou 30 anos eu folheava títulos em bancas em busca de algo para ler, e sei que muitos dos meus apoiadores chegaram até meus títulos dessa mesma maneira. Então eu simplesmente não tenho como achar ruim que haja cada vez mais títulos disputando apoio. Isso é sinal que há cada vez mais gente com possibilidade real de ter seu trabalho publicado. O aumento no número de projetos no segundo semestre é algo natural. A CCXP acontece em Dezembro, e é o evento mais visado pelos quadrinistas, então uma concentração de novos projetos nesse período é inevitável já que o processo de seleção prioriza artistas que tenham algo de novo para o evento. Este ano, especificamente, não tivemos o FIQ ou a Bienal de Curitiba para dar vazão a lançamentos ainda no primeiro semestre, então isso influenciou ainda mais. Talvez não seja o ideal, mas estamos longe de estar em uma situação complicada. Ano passado financiei a publicação de duas hqs, uma no primeiro e outra no segundo semestre. A quantidade de apoiadores foi praticamente a mesma. Então eu não quero apresentar uma solução definitiva para essa situação, mas talvez a questão não seja a do autor disputar um possível apoiador com outros autores, e sim pensar em como trazer novos leitores para esse mercado, independente se a campanha acontece em Maio ou em Setembro.

Mas claro, existem outras soluções. O apoio recorrente é uma delas, e nos últimos meses tenho estudado e me preparado para utilizar essa variação de financiamento coletivo como maneira de disponibilizar meus títulos. Gostaria de já estar com isso no ar, mas ficará para o ano que vem.

Mas esse é um daqueles problemas que eu fico feliz em ter para resolver, hahaha. Pior seria se não houvesse esse tipo de plataforma e a produção precisasse ser bancada inteiramente do próprio bolso. Aí sim estaríamos ferrados, pois a quantidade de gente publicando de maneira independente é cada vez maior, e o alcance seria infinitamente menor. O crowdfunding é mais do que uma vaquinha para você bancar sua publicação. É uma ferramenta que cria todo um mercado de leitores. Vale a máxima: em tempos de crise, tem gente que chora e tem gente que vende lenço.

5 – Entrespaço foi a sua estreia nos quadrinhos. Ela tem um peso particular de um momento de sua vida. Já foi lançada até em inglês, sendo bem elogiada por várias pessoas. Como você vê Entrespaço ainda?  Ela chegou onde você queria ou ainda pode alcançar voos maiores?

Daniel: Eu tento não olhar muito para ela hahaha. Sim, tive um retorno muito legal por parte do público com essa hq, e isso me deixa feliz porque o texto é bem pessoal, a metáfora do astronauta é meio que o meu manifesto em forma de quadrinhos.

Artisticamente falando? Foi meu primeiro trabalho em arte sequencial, e se por um lado eu gostei do resultado estético, do outro a narrativa visual me incomoda. E o meu traço estava bem cru nesse trabalho. Tenho consciência que evoluí de lá para cá, mas ainda preciso melhorar bastante alguns aspectos do meu desenho.

Para um primeiro trabalho, acho que ela chegou inclusive mais longe do que eu imaginava. O lançamento no FIQ 2018 foi excelente – foi meu primeiro evento, lançando minha primeira hq – e até hoje encontro leitores que me puxam de lado para contar o quanto se identificaram com a publicação.

Hoje estou com a tiragem dessa hq quase esgotada (espero que sobrem algumas edições para a CCXP19), mas ela está disponível em formato digital na Comixology em inglês (como Interspatial) e português.

6 – Você está presente na Antologia VHS, que reúne uma galera muito boa e está sendo bem aguardada. O que poderia adiantar sobre VHS e sobre a sua história?

Daniel: Cara, poder participar da VHS com esse tanto de gente boa é uma honra pra mim. Para quem não conhece o projeto, é uma coletânea com quase 300 páginas de quadrinhos, organizada pelo Rodrigo Ramos e pelo Fernando Barone e a ideia é homenagear a trasheira dos filmes de terror da década de 80.

A dupla conseguiu juntar uma equipe de primeira pra essa publicação, e eu fiquei chocado quando soube que iria ilustrar um roteiro do demente Victor Freundt, do qual sou fã incondicional. Aliás, eu estou verdadeiramente preocupado com o resultado dessa hq. O roteiro do Victor pega não em só uma, mas em pelo menos uma dúzia de feridas diferentes, e tem um desfecho monstruoso. Estou seriamente considerando contratar um guarda-costas com o resultado das vendas hahaha.

Falando sério, tem sido uma experiência muito boa trabalhar com o Victor nesse projeto. Em Entrespaço eu escrevi e desenhei uma hq. Com O Bar do  Pântano e Histórias para Não Dormir, tive a oportunidade de trabalhar com roteiristas, o Tazzo e o Peleias, e foi um aprendizado pela dinâmica nova. Com o Victor, a diferença é que ele também é um ilustrador, e a dinâmica muda novamente no vai e vem das páginas. O aprendizado tem sido incrível.

7 – No final do ano passado, você e o Felipe Tazzo lançaram o Bar do Pântano. Quando voltaremos a visitar o bar no inferno?

Daniel: Este ano o Bar do Pântano foi indicado, para nossa surpresa, como um dos melhores lançamentos independentes de 2018 do Troféu Angelo Agostini, e não dá pra deixar isso passar em branco. Não levamos o prêmio, e esperamos novamente não levar em 2021, mas para isso precisamos publicar o próximo volume em 2020. Então SIM, veremos mais material. Os compromissos com as duas coletâneas e os dois títulos solo que eu me comprometi a lançar este ano acabaram adiando um pouco os planos, mas não confirmo e  não nego que 2020 possa trazer uma surpresa ou outra. Desde que começamos a pensar nessa hq o Tazzo aproveitou para elaborar todo um universo que pudéssemos ter de base para futuras histórias, e foi nesse vai e vem de conversas pelo WhatsApp e um ou outro encontro movido à base de cerveja que a segunda história presente na revista surgiu.

Então o que temos é um monte de regras, situações, personagens e possíveis acontecimentos que estão fermentando em algum lugar obscuro de nossas mentes, e que em breve serão organizados para um próximo volume do Rascunho do Inferno, que é como carinhosamente decidimos chamar esse universo que criamos.

8 – E aquele papo de animação do Bar do Pântano que surgiu no Twitter?

Daniel: Pois é, temos uma animação em andamento! O Tazzo é um cara ambicioso e eu sou um mosca morta. Pense em Pinky e Cérebro. Os planos para esse universo não estão limitados unicamente às hqs, e isso é algo que o Tazzo tem em mente desde que começamos a conversar sobre esse projeto. A ideia sempre foi expandir isso para webcomics, podcasts, animação, literatura e qualquer outra mídia que a gente puder perverter o suficiente.

No caso específico da animação, no momento não estou tão envolvido com o processo quanto gostaria de estar. O roteiro gira em torno da primeira história da revista, e o Tazzo tem contado com a ajuda do incrível Daniel Ete, também conhecido como baixista do Muzzarelas, para desenvolver a parte visual da coisa. Mas é um processo demorado, e assim que os compromissos com essa pilha de quadrinhos que estou envolvido terminar, volto para dar uma força na animação (e nas outras frentes desse plano). Mas o que tenho visto de todo o processo já está deixando bem claro que vai ser algo insano.

9 – Recentemente, você publicou no Tapas, Tachyon – prologo. Com a descrição de ser uma “hq semi-biográfica que pode ou não conter elementos de verdade”. A HQ ainda vai entrar em campanha no Catarse, mas poderia adiantar alguma coisa sobre Tachyon?

Daniel: Tachyon é uma mistureba de autobiografia, misticismo, vidas passadas, referências artísticas que eu preciso colocar para fora do meu sistema e mais um monte de ideias malucas. Eu passo boa parte do meu tempo acordado absorvendo informações, seja através de notícias, conversa, terapia, twitter, o meu vizinho maluco que insiste em bater boca com o meu cachorro (spoiler: ele ainda não conseguiu ganhar uma discussão)… tem muita merda acontecendo nesse mundo e é um desperdício isso não ser aproveitado em uma boa história. A trama, no final das contas, é uma espécie de exorcismo pessoal. Não no sentido clássico – eu não escrevo terror – mas no sentido de resolver pontas soltas da minha vida, colocar isso em pratos limpos e poder seguir em frente. Então o que você vai ler, não cronologicamente, é uma história de nascimento e morte. Enquanto Entrespaço foi uma espécie de foda-se para interferências externas em minha vida, em Tachyon eu mando o mesmo foda-se para as interferências internas, ou seja, é hora de crescer e entender o quanto você mesmo é responsável pelas suas derrotas e suas vitórias. Mas se você me conhece, sabe que eu não vou fazer isso de uma maneira linear ou, sei lá, didática.

Acredito que seja um trabalho que vai atender aos leitores de Entrespaço, que pedem por mais material nessa linha, mas que ao mesmo tempo tem uma proposta diferente o suficiente para não parecer mais do mesmo. E sim, eu sei que não falei quase nada. É surpresa. Leiam o prólogo e partam do princípio que aquilo é só o comecinho.

Arte para o podcast Benzina.

10 – Você tem histórias autobiográficas, terror, “horror-fantástico-maluco” como Bar do Pântano… qual seria um tema ou gênero que você gostaria de abordar diferente desses? Algo mais político ou mais “faroeste”, futurista…

Daniel: Alguns temas eu prefiro trabalhar com um roteirista. Terror é um deles. Eu não me vejo escrevendo terror em um futuro próximo, acredito que ainda não consegui pegar o jeito para esse tipo de narrativa. Por isso, os meus 3 últimos trabalhos, que são nessa linha, contam com o roteiro de outras pessoas (e posso dizer que pelo menos mais um está nos planos para o ano que vem, já que fui pego de surpresa com um convite bem bacana). Se formos falar de quadrinhos que eu escrevo, aí sim tenho minhas predileções. Futurista, posso dizer que com certeza sim. Política? Claro, mas não no sentido panfletário. É preciso lembrar que política não é (ou não deveria ser) o jogo de poder que vemos em Brasília, mas sim defender ideais que contribuam para a sociedade. E isso pode ser feito tanto através de alegorias quanto numa abordagem mais direta. No final do dia, o que importa é você se sentir à vontade para escrever sobre o assunto.

11 – Eu acredito que estamos vivendo um momento muito bom nos quadrinhos nacionais. Diversos artistas talentosos, uma galera boa se abraçando para divulgação, até mesmo os chamados “grandes sites” têm olhado diferente para o movimento. Mas, uma vez o Aléssio Esteves me falou, e concordo com ele, que não seria uma Era de Ouro essa atual. Porque já tínhamos uma galera trampando antes, e trampando muito bem. O que você acha desse momento? É o momento certo para fazer quadrinhos no Brasil, que se tornará mais duradouro, ou é apenas uma fase que tem uma galera “surfando”?

Daniel: Cara, o momento atual é muito bacana. Minha carreira como quadrinista é recente, mas eu acompanho o cenário nacional a tempos, e a coisa só tem embalado. Mas eu concordo com vocês. Definitivamente estamos colhendo os frutos desse pessoal que praticamente pavimentou na marra o caminho para as hqs independentes. Hoje temos ferramentas de financiamento coletivo que não existiam a 10 anos, e isso facilita imensamente o processo de publicação. Redes sociais, grupos de discussão, tudo isso ajuda muito não apenas para mostrar o seu trabalho, mas também para se relacionar com outros quadrinistas e com o público. Tive muitos apoiadores nos dois extremos do país, um alcance que eu jamais teria se não fosse por essa facilidade. Mas todo o mérito é desse pessoal que está fazendo quadrinhos desde antes dessas ferramentas estarem disponíveis para a maioria do público. Esses sim são os verdadeiros heróis.

 

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Entrevista | Raphael Fernandes, da Draco e um dos operários do quadrinho nacional

A Editora Draco está completando dez anos e com uma baita história de sucesso junto com ela. Sempre investindo em produtos inéditos e nacionais, a Draco já arrebata prêmios, grandes publicações, aborda um tom crítico (e necessário) e uma legião de fãs.

Esse ano, a Draco caiu de vez no mundo do Catarse. Em uma cruzada de praticamente uma campanha por mês, e todas elas bem sucedidas, a editora vem publicando grandes obras em diversos temas e gêneros. Batemos um papo com Raphael Fernandes, editor da Draco, já foi editor da MAD no Brasil, roteirista e um dos grandes “operários” do quadrinho nacional. Falamos sobre Catarse, sobre a Draco e sobre projetos futuros. Da editora e pessoal.

1 – Rapha, a Draco já andou por terrenos do Catarse no passado, mas em 2019 caiu de vez nessa estrada do financiamento coletivo. A campanha dupla de Cabra D’Água e a Peleja Contra os Gigantes e Opticus – Intervenções é a quinta do ano, como surgiu essa ideia de abraçar de vez a plataforma?

Raphael: Nosso principal objetivo como editora é alcançar o maior número de leitores com nossas histórias originais. Por isso, nós estamos nas grandes livrarias, na Amazon e em muitas das feiras de literatura, quadrinhos e cultura pop. Sentíamos que uma grande parcela do nosso público estava consumindo apenas nas plataformas de financiamento coletivo. Também percebemos que não é só uma questão de venda, mas de um conjunto de ações que apresentam o projeto da melhor maneira possível: vídeos, imagens, releases, muitas postagens etc. Tudo isso, ajuda a chegar em um número ainda maior de leitores. O financiamento coletivo é um caminho inevitável e o Catarse tem sido um grande parceiro.

2 – Quando se fala de Catarse, a gente sabe que é um “risco” que se corre. Do tipo se a campanha não for bem, se não chegar no planejado mesmo. Por exemplo, sabemos que o 100% é o top. Mas sabemos que podemos passar dessa marcar e ficar melhor ainda. Existe esse “receio” de não chegar? E se não chegar (vamos bater na madeira três vezes) tem um planejamento “coringa” para isso? Tipo uma reserva para completar a verba da campanha, ou algo assim?

Raphael: Depende muito, Ricardo! A real é que se o projeto não alcançar nem 50%, não faz sentido completar a grana. O Catarse nos ajuda a lançar as publicações com redução de riscos e também já com um número bacana de leitores de saída. Nós estamos no meio de uma crise editorial que deixou todas as editoras com problemas de caixa, as campanhas têm nos ajudado a sair dessa situação e conquistar novos leitores.

3 – Na Draco, vocês já estão bem carimbados na plataforma do Catarse, mesmo assim quando a campanha começa deve rolar aquele frio na barriga, do tipo “será que é esse o projeto correto para lançar agora?”. Como ocorre as escolhas dos projetos para irem nas campanhas?

Raphael: Para falar a verdade, quanto mais a gente faz, menos óbvio fica a produção e a escolha de um projeto. Por exemplo, nós tivemos relativa facilidade em arrecadar a meta mínima com as quatro primeiras obras, mas nessa campanha recente percebemos que não está tão fácil. A escolha das obras está relacionada com uma mistura de sua relevância cultural com o potencial de público da mesma. O frio na barriga vai do começo ao fim, acredite!

4 – Até agora, qual foi o projeto mais “tranquilo” que teve e o mais “tenebroso”?

Raphael: Eu ia dizer “Cyberpunk – Relatos recuperados de futuros proibidos”, mas só conseguimos bater as metas extras nos dois últimos dias. Para falar a verdade, nenhum deles foi tranquilo. Estamos seguindo um modelo muito próprio de campanha: 20 dias apenas, meta inicial baixa e o máximo de divulgação e buzz possível. Reduz o tempo do meio da campanha, mas torna todos os dias relevantes, não há descanso.

5 – Indo para Cabra D’Água e a Peleja Contra os Gigantes e Opticus – Intervenções… fale um pouco desses projetos, de como foi reunir o Airton e o Zanetic e o estalo de fazer um gibi de herói brazuca.

Raphael: Esses projetos estão em andamento há alguns anos! Trabalhamos com esses autores em diversas coletâneas e percebemos que era hora de lançar HQs de fôlego de ambos. Porém, com a crise do mercado, as obras coloridas foram sendo adiadas. Até que com o sucesso das outras campanhas no Catarse, percebi que era hora de colocar esse material pra rodar. Como as HQs tem certa sinergia e dividem um mesmo tipo de público, além dos caras serem amigos, acreditamos que poderia ser muito bacana juntar em uma mesma proposta. Por enquanto, tem dado muito certo!

6 – Está virando uma “tradição” do segundo semestre, uma onda de projetos de quadrinhos no Catarse. E todos os tipos de gêneros, alguns muito bons, outros nem tantos… às vezes acho que os leitores ficam meio que perdido em tanta coisa boa para apoiar. Essa onda de projetos é benéfica, mesmo sabendo que muitas pessoas têm que escolher qual projeto apoiar por causa de grana?

Raphael: Acredito que a onda é benéfica, mas cada campanha tem que trazer novos leitores e também incentivar que apoiem outros artistas. Nós fazemos parte da Coesão Independente, grupo de editoras indie que trabalham em conjunto, e nós ajudamos muito. Sinto que falta uma união maior dos autores de quadrinhos, mas uma boa parcela já colabora muito com as campanhas. E não falo de dinheiro, mas de divulgar o trabalho um do outro. Menos retroalimentação e mais troca de leitores.

7 – Eu pergunto benéfica do tipo: o Catarse é a melhor solução, a melhor forma ou é a forma que temos para publicarmos o que queremos?

Raphael: Sem dúvida, o Catarse é uma ótima plataforma de financiamento de um projeto. No entanto, a Draco sempre atua em diversas frentes: grandes livrarias, Amazon, comic shops e o próprio site da editora. Essa é uma das melhores formas de publicar, mas tem que ter outras cartas na manga.

8 – Saindo um pouco do Catarse, quais são os planos para o futuro da Draco?

Raphael: Estamos completando dez anos e lançando o máximo de coisas para celebrar com nossos leitores! Ainda haverá muitas surpresas, mas estamos esperando tudo ficar pronto para ir anunciando. Há até a possibilidade de uma festa. A agenda está muito cheia com CCXP, Horror Expo e Bienal do Livro do Rio! Alguns spoilers: as gangues estarão de volta, o treinamento só começou, parecia fantasia mas não era, uma estreia dramática, um épico sobre a guerra.

9 – E os planos do Raphael Fernandes? Quem te acompanha nas redes sociais, sabe que assunto é o que não falta para você. Teremos novos roteiros? Alguma coisa, quem sabe (vou dar uma dica se possível) relacionada ao rock? E o Fuzz Tarot, volta à ativa quando?

Raphael: AHHAHA! Gosto de produzir, me faz uma pessoa mais feliz! Estou sempre escrevendo novas histórias e no momento tenho trabalhado em alguns dos projetos da Draco pra 2020. No entanto, existe uma possibilidade de lançar uma ou duas HQs longas novas esse ano. Vai depender de alguns fatores, mas acredito ser plenamente possível. Sobre o rock, tenho um projeto, mas vai ficar pro futuro. Já sobre o Fuzz Tarot, só voltar será em outra plataforma que não o Instagram. Porém, continuo lendo tarot pra galera!

A campanha dupla de Cabra D’Água e a Peleja Contra os Gigantes e Opticus – Intervenções, já se encontra com 66% da meta alcançada. Para saber mais detalhes como valores, recompensas e claro para apoiar, clique AQUI.

 

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DestiNation #2 | Confira a entrevista com os autores Alessio Esteves e Lobo Loss

Durante o FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos do ano passado, um dos destaques foi o lançamento de DestiNation. A HQ que mistura gêneros como faroeste, cyberpunk e misticismo chamou atenção, contando a história de Jeff Van Cypher, um mercenário cibernético, que tem um passado misterioso, em sua árdua caçada à Don Juan, um cyberxamã que destruiu a sua família. A Torre de Vigilância fez a sua resenha sobre DestiNation, para saber mais clique AQUI.

Agora chegamos na tão sonhada e prometida continuação. Começou a campanha de financiamento coletivo no Catarse para DestiNation #2 (que em dois dias já está quase em 20%). Agora teremos um foco maior no antagonista Don Juan. A nova edição promete expandir o universo com novos elementos e personagens, coisa que ficamos com gostinho de “quero mais” depois no primeiro número. Serão três histórias, novamente com roteiros de Alessio Esteves (Zikas, Despacho, Na Quebrada) e arte de Lobo Loss ( O Mundo de The Witcher – Old Dragon), confira os títulos e as sinopses abaixo:

  • Pássaro Azul – Uma caçada a bandidos dá errado e Van Cypher vai precisar da ajuda de um índio hacker para escapar;
  • Pé na estrada – A caminho de um novo serviço, motoqueiros tentam roubar o combustível de Smut, a montaria de Van Cypher;
  •  Na teia do Aranha – Um terrorista geneticamente modificado está atacando os trilhos da Kismet e Van Cypher é contratado para capturá-lo.

Para sabermos mais sobre DestiNation #2, batemos um papo com a dupla criadora, Alessio Esteves e Lobo Loss:

1- O que podemos esperar de DestiNation #2?

Lobo: Com certeza um aumento de escopo do que rolou no primeiro!
Alessio: Exato. São mais personagens, mais cenários… O mundo da HQ cresce como um todo.

2- DestiNation é uma grande salada de estilos. Temos o cyberpunk, faroeste, misticismo… quais as principais influências para compor essa “salada”?

Alessio: Vish… Da minha parte, de cara, cito o Universo Marvel 2099 e Transmetropolitan. Mas não dá para não falar de Read Dead Redemption, com suas dezenas de personagens únicos com passado e motivações detalhadas. Quando falamos de misticismo, as várias abordagens mágicas presentes na HQ têm muito de Mago, a Ascensão e Carlos Castañeda.
Lobo: Gosto muito de usar os enquadramentos de filmes de faroeste, fica bacana. Essa coisa de começar no close nos personagens e depois ir para o cenário. Mas no segundo volume tive a oportunidade de mostrar mais ambientes. O primeiro volume tem muitas histórias em locais fechados ou escuros. Agora temos florestas, cidades… Então tive que ver como misturar tudo isso na arte
Alessio: Sem contar que tudo que a gente leu, viveu, meio que entra na HQ de um jeito ou de outro.
Lobo: Aquelas coisas lá no fundo da mente que às vezes entram sem querer.
Alessio: Tem Batman, tem Akira…
Lobo: Nossa, quem gosta de Akira vai pirar lendo este volume!

3- Jeff Van Cypher é um personagem misterioso. Na primeira edição, alguns elementos do seu passado como sua esposa e filha foram levemente abordados. Teremos mais profundidade no passado dele em DestiNation #2?

Alessio: Ô se teremos, mas não rola falar mais por motivos de SPOILER. De qualquer maneira, estamos dando aos leitores as peças de um quebra-cabeça, que eles devem ir montando.

4- Já sabemos que teremos o antagonista Don Juan como um dos principais personagens desse segundo número de DestiNation. Quem seria esse vilão? O estilo dele se equiparia à quem?

Alessio: Mais que o principal vilão de DestiNation, queria reforçar que Don Juan é um antagonista, no sentido que ele é totalmente oposto ao Van Cypher em todos os aspectos.
Lobo: Para mim é difícil comparar o Don Juan a alguém, porque não consigo pensar em ninguém parecido.
Alessio: Verdade. O Van Cypher tem inspirações mais claras.
Lobo: Ele é meio Hellboy, meio Jonah Hex. Já o Don Juan não tem. Acho que podemos bater no peito e segurar essa bronca.
Alessio: Bora pro play!

5- O estilo de DestiNation é um dos pontos diferenciais da HQ. Os traços são lindos. Nas feiras vocês geralmente levam uma miniatura do Jeff Van Cypher. Existe algum planejamento para camisas ou mais miniaturas dessas para o futuro? Quem sabe até uma marca de bebida?

Alessio: Porra, nunca tinha pensado em marca de bebida! É uma boa!
Lobo: Eu sonho em ter uma parada dessas!
Alessio: Temos planos sim de camisetas e miniaturas, mas acreditamos que não é o momento ainda. Estamos focados em fazer a HQ.
Lobo: Tem que firmar a marca, juntar um público. Aí, com isso firme no meio da galera, rola pensar em produtos derivados.

7- Alguns dos personagens secundários do primeiro volume irão retornar agora?

Alessio: Estamos explorando o universo de DestiNation e achamos que é cedo para isso, mas vocês poderão ver que pelo menos um deles está ativo no cenário

8-Teremos algumas referências com pessoas reais ou situações reais?

Alessio: O Don Juan é uma referência bem direta ao mestre do Carlos Castañeda em seus livros sobre xamanismo. E começa nesta edição uma brincadeira envolvendo uma gangue e… Bom, melhor deixar galera ler pra sacar!

9- Ambos são pessoas muito ativas no mercado do quadrinho nacional, como vocês enxergam esse momento? Vejo muita gente falando que estamos em uma espécie de “Era de Ouro”, por causa da quantidade de artistas e produtos de alta qualidade que estão sendo lançados (seja via Catarse ou via Editoras mesmo), concordam com isso?

Alessio: Não gosto de falar em “Era de Ouro”, pois parece que estamos desmerecendo todo mundo que veio antes de nós. Até porque algumas tiragens de décadas atrás são impraticáveis hoje.
Lobo: O que rola hoje é que tem mais canais de divulgação, o que deixa o público mais próximo autor. Então o que rola hoje é muito mais visibilidade do material lançado, mais que quantidade e qualidade.

10- O Lobo é um exímio Mestre no RPG (segundo as boas e más línguas) e o Alessio também é um profundo jogador experiente. Qual a possibilidade de vermos DestiNation um dia como um RPG? 

Alessio: Como alguém que mestra RPG desde os 12 anos, achei a citação à minha pessoa nesta pergunta ofensiva.
Lobo: HAHAHAHAHAHA!! Mas a possibilidade é grande, muito grande.
Alessio: Só estamos esperando a HQ ter mais volumes para o cenário estar mais estabelecido.
Lobo: É muito mais fácil o cenário estar construído para montar o jogo, e evita spoilers.

11- Qual o próximo trabalho da dupla? Seja ele junto ou os individuais.

Alessio: Juntos, é DestiNation e só.
Lobo: É um casamento muito bom, está dando certo, deixa como está.
Alessio: Eu tô participando do VHS, uma coletânea independente de terror com pegada nos filmes de 1980 que entre em financiamento coletivo em breve, e mais dois projetos secretos, que não posso dar detalhes agora.
Lobo: Da minha parte, é mais da área de RPG. Vai sair um Bestiário (não-oficial) de Witcher para Old Dragon, tá rolando o streaming semanal de Vampire Bloodlines que rola no canal da Ethernalys e teremos em breve novidades para o Vampiro, a Máscara 5ª Edição. Sigam Lobo Loss nas redes aí que falo tudo por lá.

DestiNation #2 terá formato americano, 48 páginas em papel couché de sépia com detalhes coloridos e capa cartonada. Para saber mais sobre a campanha, valores e recompensas clique AQUI.

 

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Torre Entrevista | Chuck Dixon

O pai de um dos maiores vilões do Batman, prolífico roteirista e uma pessoa dotada de extrema simpatia, Chuck Dixon é um grande nome do mercado de quadrinhos norte-americanos. Algumas de suas obras inéditas foram lançadas no Brasil recentemente, enquanto outras ganharam republicações, e motivados pela cena atual, resolvemos entrevistá-lo para falar um pouco sobre duas histórias em específico:

Primeiramente, gostaria de agradecer por ter aceitado fazer esta entrevista. No período de alguns meses, os leitores brasileiros foram agraciados com os lançamentos de alguns quadrinhos de sua autoria, tais quais as edições de luxo de Robin: Ano Um e Batgirl: Ano Um (pela editora Eaglemoss), e o lançamento da inédita Bane: A Conquista (Panini), bem como a publicação de um encadernado especial de Mundo Invernal (Mythos Editora) compilando as duas aventuras originais ilustradas por Jorge Zaffino, e a recente La Niña. Gostaria de centrar, nesta entrevista, nestes dois quadrinhos citados por último.

Muito obrigado por vir falar comigo!

Chuck Dixon em sua mesa na MegaCon Tampa Bay em 2016. (Reprodução: bleedingcool.com)

Vamos começar falando sobre você. Em quaisquer sites como a Wikipedia ou até mesmo no Dixonverse qualquer um pode encontrar detalhes sobre o início de sua carreira. Entretanto, eu gostaria de saber como você se envolveu com os quadrinhos inicialmente, como leitor, para depois ir trabalhar no mercado.

Quando eu era criança havia quadrinhos em todo lugar. A maioria das casas tinha pilhas deles. Eles estavam na barbearia, farmácia e todo lugar que eu ia. Eu ficava muito doente quando criança, e membros da família traziam quadrinhos para mim como presentes. Eles se tornaram meu mundo. Ainda muito novo, eu estava estudando a “linguagem” dos gibis. Eles também se tornaram meu interesse central. Eu queria criar meus próprios quadrinhos e até desenhei centenas de páginas ao longo do ensino médio. Não havia nada mais que eu queria fazer além de trabalhar com quadrinhos, então arranjei alguns empregos simples para ter condições mínimas e fui para Nova York para ir à Marvel e DC sempre que eu pudesse.

Finalmente, no meio dos anos 80, quase simultaneamente eu chamei a atenção de duas empresas, a Eclipse Comics e a Marvel Comics. Então trabalhei duro para provar que eu era confiável e que poderia apresentar histórias competentes. Logo, fui contratado como roteirista e nunca mais olhei para trás!

Em 1987 você criou a série Mundo Invernal. Alguns textos de sites especializados dos EUA comparam a série original (e suas continuações modernas) com Mad Max, apelidando-a de “Mad Max no gelo.” Gostaria de saber quais foram as influências e inspirações para a criação de Mundo Invernal, e se realmente Mad Max foi parte das mesmas.

A maior influência foi Jorge Zaffino [o artista de Mundo Invernal]. No mesmo instante em que vi seu trabalho, eu soube que eu queria fazer algo cru e perigoso. Uma história pós-apocalíptica situada em um ambiente estéril e hostil pareceu perfeita para o estilo único de Jorge, seu dom de desenhar pessoas reais e suas habilidades em coisas elementares como clima e ação.

Há alguma influência de Mad Max [em Mundo Invernal] mas não nos aprofundamos no lado “punk” daquela série. Era mais algo como o mundo real, e menos fantasioso. Essas pessoas estavam muito ocupadas tentando sobreviver para ficar pensando em estilo!

Capa da edição nacional de Mundo Invernal, da Mythos Editora. (Reprodução: mythoseditora.com.br)

Em um texto seu escrito em 1988 e publicado em Winter World 3, você menciona o fato desta história ser sobre pessoas sobrevivendo sem um rumo exato, e não sobre salvar o universo. Esta é uma característica que se manteve quando a série retornou em 2014?

Com certeza. Eu sempre preferi histórias onde os personagens estavam mais preocupados com seus interesses pessoais do que com objetivos mais altos. Eu consigo me relacionar melhor com alguém tentando sobreviver, procurando comida e abrigo. Eu me relaciono menos com alguém tentando mudar o mundo.

Como foi retomar esta série após tantos anos? Quais foram os principais processos para que você pensasse “ok, Mundo Invernal deveria retornar às comic shops”.

A IDW tinha um interesse real em uma série de TV. Simples assim. Isso permitiu que eles pensassem em me chamar para criar uma nova série de quadrinhos. Pra mim, foi como se o tempo não tivesse passado. Eu estava de volta ao mundo de Scully e Wynn facilmente, como andar numa sala familiar.

Primeira página da série original Mundo Invernal, de 1987. Arte de Zorge Zaffino. (Reprodução: amazon.com.br)

Scully, Wynn e Rah-Rah formam um trio único. Como você descreveria a relação entre Scully e Wynn?

Não é uma relação de pai e filha. Eu suponho que eles sejam mais como irmãos. Apesar dela ser mais nova, Wynn é de um mundo onde todos devem crescer rapidamente. Então, apesar da diferença de idade, eles são equivalentes, iguais. Em um mundo onde você não pode confiar em ninguém, eles contam um com o outro para sobreviver e sabem que eles se apoiam juntos.

Já pensou, alguma vez, em dar maiores detalhes acerca de como o planeta chegou ao ponto que está neste universo? Durante La Niña [história presente no encadernado da Mythos Editora], um dos personagens dá dicas acerca do ocorrido, mas nada muito aprofundado. Esta vontade de contar em detalhes os acontecimentos que congelaram o mundo já passou pela sua cabeça?

Eu nunca quis ir às origens. Fazer isso iria sugerir que há uma solução [para a situação do mundo congelado]. Eu não queria que meus personagens lidassem com nada disso. Eu queria que suas histórias fossem sobre pessoas frágeis em um mundo duro, violento e quase inabitado. Eles não se importam sobre como o mundo chegou onde chegou. Suas únicas preocupações são comida e calor. E as dicas dadas nesta história são apenas teorias.

Capa da primeira edição do retorno de Mundo Invernal, publicada pela IDW em 2014. Arte de Butch Guice. (Reprodução: idwpublishing.com)

Migrando para a DC Comics e as perguntas direcionadas à Bane: A Conquista. Primeiramente, como foi trabalhar com basicamente toda a Batfamília? Você ainda acompanha regularmente o que é feito com os heróis e vilões do Batman?

Eu não mais acompanho os quadrinhos de perto, já que eu não trabalho mais para a DC regularmente. Eu tenho que pensar nas minhas próprias continuidades!

Trabalhar para a DC Comics foi uma tremenda oportunidade pra mim. Eu ainda não acredito que pude brincar naquele playground por tanto tempo! Eu me arrepiava sempre que escrevia “Batman e Robin.” Isso nunca foi embora!

Bane é, talvez, sua criação mais famosa para o universo do Batman. Como foi ver seu personagem adaptado duas vezes nos cinemas (Batman e Robin em 1997 e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge em 2012), e quais as impressões que ambas as adaptações lhe passaram como “pai” deste personagem?

A primeira versão (vivida por Jeep Swenson) teve o melhor visual de todos. Mas ele foi interpretado como um viciado em um filme muito ruim. O Cavaleiro das Trevas Ressurge foi muito melhor, mostrando o Bane como um intelectual. Mas ainda não foi o que Graham Nolan e eu tínhamos em mente.

Capa do segundo e último volume da série Bane: A Conquista, que está atualmente nas bancas em lançamento da editora Panini. (Reprodução: hotsitepanini.com.br/dc)

Atualmente, Bane: A Conquista está sendo publicada no Brasil. Sobre esta série, como foi retornar à sua cria após tanto tempo, e quais foram seus principais objetivos com o desenvolvimento desta história?

Graham e eu tínhamos mais histórias para contar. Quando começamos, foi como se nem um dia tivesse passado desde a última vez. Nós “lidamos” com o Bane melhor que qualquer um pois nós o criamos. Há muita profundidade lá.

Conhece o Brasil? Se não, gostaria de conhecer?

Eu gostaria de conhecer. Meu grande amigo Sergio Cariello mora não muito longe de mim aqui na Flórida. Ele fala sobre ter crescido no Brasil o tempo todo.

Em que você está trabalhando atualmente? Poderia dar algumas dicas do que virá no futuro?

Estou trabalhando em uma nova série do Van Helsing para a Zenescope, e também em uma série chamada Avalin para a ArkHaven, uma nova empresa. E tenho muitos projetos que ainda não foram anunciados, incluindo uma graphic novel para a Marinha dos Estados Unidos.

Van Helsing vs. The Werewolf #2, da editora Zenescope. Arte de Mike Lilly. (Reprodução: blog.zenescope.com)

Chuck, gostaria de agradecer imensamente a atenção depositada para responder estas perguntas, e tenho certeza que os fãs brasileiros irão gostar de ler suas respostas. Por fim, queria pedir que mande algum recado para os leitores daqui, e também aproveitar o espaço para lhe desejar todo o sucesso do mundo!

Para todos meus amigos brasileiros, muito obrigado por ler e curtir meu trabalho! Acreditem, eu gosto de ter minhas histórias sendo desfrutadas em cada canto do mundo!

Acessem meu site em https://dixonverse.wordpress.com/ e conheçam Bad Timeshttps://amzn.to/2yrs5bC

Agradecimentos ao Roberto Nicácio pela colaboração.

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Música Torre Entrevista

Torre Entrevista | Michelle Bensimon, a voz da Canário Negro

Talvez o nome não soe tão familiar, mas com certeza sua voz já é bastante conhecida por todos os que amam quadrinhos, em especial, para os fãs da DC e da Canário Negro. Michelle Bensimon, dona de uma voz marcante e um timbre único, é a responsável por trazer para o mundo real a voz e a musicalidade de Dinah Drake Lance. Convidada pela DC para lançar um EP parte integrante da série O Som e a Fúria (Kicking and Screaming), ela voltou este ano em um segundo EP em homenagem aos 70 anos da personagem (você pode conferir as matérias aqui e aqui).

Michelle é também a vocalista da banda de indie/pop Caveboy, na estrada desde 2015, data em que lançou o primeiro EP “Caveboy“. Desde então já teve músicas incluídas em algumas séries, como “Awkward” (MTV) e “Orange Is The New Black” (Netflix). Em 2016 lançou também os singles Superbia e Color War e, na última sexta-feira, lançou o single Raconteur, e nesta segunda-feira o vídeo oficial, que você confere ao final da entrevista.

Com imensa simpatia e simplicidade, ela concedeu à Torre sua PRIMEIRA ENTREVISTA para um veículo brasileiro.


Segundo a biografia no seu site pessoal, você é uma ex-atriz teatral e já teve experiências com bandas e projetos solos. Como aconteceu essa mudança de estrada e como você se juntou ao Caveboy?

Há mais ou menos 5 anos atrás eu vivia em Toronto terminando a faculdade e estudando atuação, mas percebendo o quanto eu não queria ser uma atriz. Eu sempre amei música e cantar mas nunca realmente encontrei onde ou o que eu queria fazer a respeito até que eu voltei à minha cidade natal (Montreal, QC) para fazer um teste para a banda da Lana e Isabelle (as outras integrantes da banda CAVEBOY). Após conversarmos e tocarmos, eu nunca voltei para Toronto. Me apaixonei por estar em uma banda, escrevendo junto e o resto é história! Começamos Caveboy há mais ou menos 2 anos e meio atrás e isto se tornou a mais incrível e satisfatória experiência.

Quais suas principais influências musicais e como elas te ajudam a compor? Você gosta ou conhece algum cantor ou banda brasileira?

Desde criança, eu sempre ouvi músicas dos anos 60, 70, 80… Eu amo Fleetwood Mac, The Beatles, mas também coisas recentes como Portugal the Man, LP. Eu também amo Freddie Mercury, ele é uma das maiores influências para mim como artista. Eu acredito que escutar músicas mais antigas ajuda a manter este tipo de composição viva. Eu amo compor músicas atuais. Versos, pontes fortes, refrões fortes e tudo em torno simples mas cativante. Eu acredito que “música pop” é uma categoria mais ampla do que pensamos que quando escutamos à rádio, e isto não é algo que devemos temer como compositores indie/alternativos. Fazer música que muitas pessoas possam se apaixonar, não há nada de errado nisso nos meus manuais. Sobre cantores brasileiros, eu gostei muito do que Seu Jorge fez em ‘The Life Aquatic’! Eu adoro escutá-lo.

Em 2015 a banda lançou seu primeiro EP homônimo e depois teve músicas inclusas em várias séries de TV como no sucesso da Netflix “Orange Is The New Black”. O que mudou desde então?

Caveboy teve bastante sorte em ter nossa música em incríveis shows de TV e filmes, como Orange Is The New Black. É uma forma das pessoas ficarem curiosas sobre nossa música e a banda em si, e uma forma das pessoas associarem suas emoções e histórias conforme escutam à música. Isto realmente nos ajudou alcançar lugares no mundo que nós nunca imaginaríamos ter acesso, estes shows mais populares virou uma plataforma para que expandíssimos nossa base de fãs.

Em 2016 foram lançados dois singles (muito bons na minha humilde opinião), e outro agora em 2017. Podemos esperar por um próximo álbum ou EP nos próximos meses?

Fico muito feliz que tenha gostado da música e empolgada em compartilhar mais com vocês. Nós estamos muito, muito empolgadas por termos recentemente lançado nosso primeiro novo single ‘Raconteur‘, gravado na Irlanda em Maio. Estamos planejando um segundo single em alguns meses, e ainda mais para 2017. Eu acho que pode-se dizer que podem esperar um monte de músicas novas no próximo ano! Decidimos produzir de forma independente este set  de novas músicas, o que nos assusta um pouco pois tudo recai sobre nós – mas aceitamos o desafio.

Da direita para a esquerda: Michelle, Isabelle e Lana.

Mudando um pouco de foco, no ano de 2016 você foi contatada para gravar o primeiro álbum da Canário Negro, parte da série em quadrinhos O Som e A Fúria. Como se deu o contato para este projeto?

Joseph Donovan foi quem produziu o nosso primeiro EP e mixou algumas das músicas, e instantaneamente sentimos esta conexão musical que deu muito certo. Ele me procurou com a proposta do primeiro EP (em correspondência à estupenda série de Brenden Fletcher) e eu não pude dizer não. Ele escreveu todas as músicas, todas as 6 contando com as atuais, e nós forçamos minha voz a novos limites para assegurar que conseguiríamos o som adequado para esta maravilhosa, forte e importante personagem.

Qual foi a sensação de gravar como uma super-heroína como a Canário Negro?

Honestamente? As músicas eram realmente muito difíceis de cantar, as quais eu penso que faça com que seja mais intenso e mantenha a integridade e verdadeiro sentido da personagem. Ter que forçar minha voz e encontrar novas formas de fazer esta personagem se expressar foi desafiador mas muito recompensador.

Como foi o processo criativo?

Joseph é muito brilhante e ele verdadeiramente sabia como estas musicas soassem. Ele tinha estas influências, Siouxe and the BansheesBauhaus, e nós tivemos que jogar com minha voz para ter certeza que pegássemos todas as nuances dessas músicas e suas melodias. Nós queríamos que soassem cruas, autênticas e verdadeiras ao personagem enquanto mantivessem esta vibe oitentista.

O que você acha que tem em comum com Dinah Lance/Canário Negro, tanto a cantora quanto a vigilante?

Bem, eu acredito seguramente que nós tentamos e usamos nossas vozes como armas, com formas de expressarmos a nós mesmas, em boas e más situações. Nos voltamos para nossa voz pela força – e eu acredito que esta dualidade e o que nós compartilhamos realmente me fazem sentir conectada a ela. Ela é tão forte, durona , e precisa lutar através de situações difíceis e como uma mulher ser respeitada e vista por quem ela é. Isto é algo que eu definitivamente relaciono como uma mulher na indústria musical.

Além dela, há alguma outra personagem que você goste, mesmo que não seja da DC?

Eu adoro o Demolidor. Eu acredito que ele seja uma personagem complexa e intrigante que nunca se distancia de uma situação, ele sempre PRECISA se envolver. E claro, Mulher-Gato. Quem não ama a Mulher-Gato?

No Brasil temos uma “rixa” que é mais uma brincadeira que qualquer outra coisa, então eu preciso perguntar: Mavel ou DC?

Ah não, eu acho que não consigo responder isso! Ambas possuem suas personagens espetaculares, mas eu sou uma fã dos Batman e Superman clássicos… Acho que eu diria a DC de uns 40-50 anos atrás.

Você acha que existe a possibilidade da Caveboy vir ao Brasil proximamente ou teremos que esperar um pouco mais?

Nós adoraríamos ir ao Brasil, possivelmente vocês não precisem esperar muito tempo! Apenas diga-nos onde e quando, e nós estaremos lá.

Você pode deixar uma mensagem para os seus fãs brasileiros?

Muito obrigada por acompanhar minha voz como Canário Negro e também a Caveboy. Não posso esperar para continuar compartilhando novas músicas e enviando bastante amor a vocês.


Confira abaixo o vídeo oficial do novo single, “Raconteur” e os links para as mídias da banda Caveboy.

Caveboy no Spotify:

Facebook: Caveboy

Site: https://www.caveboymusic.com/home

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Quadrinhos Torre Entrevista

Torre Entrevista | Paul Pope

Há um bom tempo queria entrevistar o Paul Pope. Dono de um traço original e versátil, suas histórias chamavam minha atenção. Nos encontramos em uma cafeteria no meio de uma tarde chuvosa em São Paulo e Pope, muito atencioso como em todas as vezes em que conversamos, falou sobre suas experiências com a Marvel e DC, trabalhos passados, sobre a tão aguardada conclusão do segundo volume de Bom de Briga, projetos futuros, artes e muito mais que você confere logo abaixo, na PRIMEIRA entrevista concedida por ele em 2017!


Muitas das suas HQs são ligadas aos quadrinhos underground pelo estilo do seu traço, que apesar de ter influências de Hugo Pratt, Victorio Girardino, Alex Toth e etc. tem um quê de alternativo. Você já se sentiu como um ”estranho no ninho” ao trabalhar para grandes editoras como Marvel, Dc, Kodansha, Dargaud…?

Às vezes. Vejo a Marvel e DC como se fossem selos de gravadoras. Assim eu seria como um músico de jazz em uma gravadora de música pop. Porque meu estilo é bem diferente comparado ao que é publicado no mainstream americano.

Você já trabalhou para mercados dos Estados Unidos, Japão e Europa. Como essa mistura de ideias e cultura influenciaram em suas histórias?

Sempre me interessei em procurar uma síntese de estilo, quando se tira os melhores elementos de Bande Dessineé, Mangá e os quadrinhos americanos. Deste último, mais precisamente os quadrinhos clássicos e underground, como os do Robert Crumb. Assim se constrói um novo estilo.

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Capa de Strange Tales #1 (Marvel Comics, 2009)

Lá pelo ano de 2010 você fez apresentações como DJ. Essas, eram acompanhadas de um vídeo. Algo interessante é que esse vídeo não está disponível em lugar algum. Você também já disse que gosta que as pessoas imaginem como é algo que não é tão fácil de se obter…

Sim, acho importante. Principalmente nessa era onde está tudo tão fácil disponível online acho bom que ainda haja algum mistério. Também acho que há um grande valor em não ter acesso a tudo pois assim pode exercitar sua imaginação. O vídeo ao qual você se referiu tem cerca de 30 minutos de duração e é uma série de trechos de filmes de ficção científica e documentários sobre explorações espaciais, porém exibidos em um ritmo mais lento. São luzes, lens flares, planetas e imagens cósmicas. Uma espécie de filme impressionista para reagir com a música…

…é por isso (o não tão fácil acesso às coisas) que o protagonista de Bom de Briga tem um passado obscuro? Algo que não acontece com a Aurora West, que tem uma HQ contando seu passado?

Acho que porque o Bom de Briga é descendente de deuses; A Aurora, de humanos. Aurora representa heróis como o Homem de Ferro ou Batman, que não têm superpoderes, apenas trajes e aparatos modernos. Pelo BB ser um Deus acho que é necessário ter um quê de mistério sobre suas culturas, por isso não vemos muito sobre ele.

Você costuma desenhar ouvindo música. Em imagens do seu estúdio já vi pedais de distorção e cabos de amplificador pelo lugar. Música é seu Heavy Liquid (referência a uma HQ homônina de Pope. Inédita no Brasil)? É como o Robin que seu Batman na história Teenage Sidekick precisa para não se tornar um Coringa?

[Risos] Eu vim de uma família de músicos. Sempre gostei de tocar e gravar. Essas coisas estão lá porque costumo usá-las. Já fiz trilhas e vários amigos meus de Nova York são músicos e compositores de Jazz e Rock. Sou muito influenciado por música pois não há aspectos visuais nela, apenas sons. Por sua vez, quadrinhos não tem som. Por isso penso que música pode ser um complemento para a arte de fazer HQs.

Uma grande influência sua, Hugo Pratt, depois que criou o Corto Maltese se tornou mais sério perante seu público. Ele achava que não levariam a sério o Corto caso os leitores percebessem que seu autor era frívolo. Algum personagem ou autor influenciou sua forma de pensar e agir depois de você ler suas histórias?

Você diz sobre a relação entre arte e o autor ou sobre mim mesmo?

Pode ser sobre as duas coisas.

Pratt é intrigante porque ele é uma figura tão internacional. Admiro muito ele e Moebius, que deixaram seu país para ir a outros lugares. Também vejo isso em Attilio Micheluzzi, que era arquiteto na Líbia até  Muammar Gaddafi chegar ao poder e aí [voltando à Itália] começou a fazer quadrinhos. Outro é Daniel Torres, que foi escultor na Espanha. Como minha formação é de História da Arte e Artes Visuais, comecei nos quadrinhos após 8 anos de faculdade, onde eu pintava esculpia e fazia coisas do gênero. Dessa forma, me sinto mais como um autor europeu, desses autores que transitaram entre outras artes antes ir aos quadrinhos…

Por isso você se tornou um quadrinista ao invés de músico?

De certa forma. Quando eu era mais jovem toquei muito. Tive bandas, fiz shows. Era necessário muito tempo dedicado para ambas as artes então tomei a decisão dos quadrinhos ser a arte dominante. Já fiquei sem tocar guitarra por 2 ou 3 anos daí voltei. Hoje em dia voltei a fazer e gravar música. É interessante, porém não tem como tomar a maior parte do meu tempo. Também tenho interesse em esculturas. Estou fazendo esculturas de brinquedo, porém não tenho tempo de fazer algo em bronze ou outro tipo de metal.

Quando Escapo foi reeditado, sua publicação veio em cores. A primeira era preto-e-branco. No posfácio da edição em capa dura você diz que obras em cores vendem. São mais atrativas aos leitores.

Saíram duas histórias de Escapo. Existe uma terceira história dele que devo publicar quando os direitos sobre o personagem voltarem para mim. Quando eu reeditar, vai ser em preto-e-branco novamente. Alguns projetos levam muito tempo para serem concluídos. Comecei as histórias do Escapo em 1995; A segunda história saiu em 2001. Por volta de 2008 voltei a mexer com Escapo, quando finalmente tive ideias para uma nova história. Portanto, demorou quase 20 anos para chegar ao fim.

É por isso (sobre o uso de cores) que Bom de Briga tem um traço mais limpo, sem muito uso de preto e sombras? Mas porque Rise of Aurora West é em preto-e-branco?

[sobre Bom de Briga] Sim, é isso mesmo. [sobre Aurora West] foi uma decisão editorial, não minha. Assim como o formato de Bom de Briga. Não gosto muito daquele formato publicado. É muito pequeno. Mas estou conversando com a editora para ter edições publicadas em um formato maior.

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Capa de Fall of the House of West (First Second books, 2015)

Mas esse formato não foi uma ideia para poder encaixar em estantes de bibliotecas?

Sim. Nesse sentido, isso é muito bom porque a First Second (selo da editora Roaring Brook Press que publica Bom de Briga nos Estados Unidos) é bem conservadora. Publicaram diversos livros mas apenas recentemente começaram a publicar Graphic Novels. Mas acho que precisamos, além de experimentar esse formato que custa em média 10 dólares e de disponibilidade em bibliotecas, também ter publicações em formatos maiores e em preto-e-branco atrativo a outros públicos, que gostam de apreciar a arte. Por isso estou conversando com a editora para tornar isso possível.

Agora que você finalmente está concluindo Bom de Briga, você mira fazer desta obra algo imortal, uma HQ para ser lembrada para esta e as próximas gerações. Quais obras você considera neste nível?

Os quadrinhos d’O Pato Donald feitos por Carl Barks, o Tintim de Hergé, qualquer obra do Katsuhiro Otomo ou [Osamu] Tezuka, Robert Crumb, o Bone de Jeff Smith, espero que Bom de Briga… Tudo que Jack Kirby fez para a Marvel nos anos 60 e começo dos anos 70, qualquer uma feita por Moebius, como Incal… acho que essa já é uma boa lista.

Você considera Bom de Briga sua obra mais pessoal? Pelo tempo dedicado, ideias colocadas na história e etc.

Acho que foi a mais exigente, porém não a mais pessoal. Tenho um projeto com a Dargaud chamado Psychonaut que considero muito pessoal. É sobre sonhos e análises sobre os mesmos. E isso é um contraponto com Bom de Briga que é algo mítico, uma jornada heroica ou a minha versão a respeito disso. Por isso [em BB] tentei colocar tudo que acho bacana e que não existe em quadrinhos para leitores mais jovens. Algo contemporâneo e ainda assim clássico. O lado interessante da publicação é que tenho conhecido leitores de cerca de 12 anos de idade que leram BB e essa é a única HQ que eles têm até então. Isso é ótimo, um jeito de apresentar graphic novels a uma nova geração.

Curiosa essa resposta porque eu estava para perguntar sobre um projeto da Dargaud antes chamado La Chica Bionica. O que aconteceu com esse projeto? E qual é o novo nome?

Agora se chama La Bionica e é um tipo de ópera. No momento tenho dois contratos com a Dargaud: Um para Psychonaut, outro para La Bionica. Sobre o cronograma, ambos são projetos exigentes. Psychonaut se tornou mais dominante. Então, estou terminando Psychonaut junto com Bom de Briga e La Bionica virá depois. Desta última, tenho cerca de 30 páginas finalizadas de um total de 76. Psychonaut é um pouco maior e faltam, talvez, 10 a 15 páginas para terminar.

Há algum prazo para o lançamento de tal?

Não. Haverá quando sabermos exatamente onde acaba e quando eu puder entregar estas páginas. É o mesmo com Bom de Briga no momento, que está em processo de enviar das páginas para os próximos estágios de produção. Em BB a história já foi escrita e estou terminando as páginas do segundo volume mas não há como colocar no programa de lançamento antes de tudo estar finalizado e daí podemos trabalhar a respeito disso. Eles [os editores] não querem que eu divulgue exatamente quando a HQ deve sair ainda mas acredito que no próximo ano, provavelmente.

Bom de Briga é para todas as idades, igual várias séries animadas do Cartoon Network (Hora de Aventura, Apenas um show…). Qual foi a parte mais difícil de agradar todos os públicos, sendo que hoje a média de idade dos leitores de quadrinhos nos EUA varia de 27-35 anos para homens e 17-26 para mulheres? A DC Comics já recusou um projeto seu sobre o Kamandi por este motivo (não coadunar com o público-alvo).

Respondendo a primeira parte da pergunta, eu procuro não me preocupar sobre às expectativas do público. A parte mais difícil de Bom de Briga além da história por completo, o quanto levará para ser feita e todos os diferentes altos e baixos tem sido a necessidade de compromisso com a editora porque também sou diretor de arte, todas as minhas HQs têm se saído bem e eu tenho controle sobre o design de minhas publicações e, à partir do momento que não tenho é muito frustrante para mim porque é limitar o que os leitores mais jovens estão aptos a ver sobre o potencial da obra. Por isso também estão disponíveis apenas estes volumes menores por enquanto, mas como eu disse, estou trabalhando para mudar isso. E é verdade, eu tive conversas com a DC sobre uma publicação dedicada um público mais velho. Na época, era para ser do Kamandi mas, conversando com Frank Miller e tendo em vista a repercussão da minha HQ do Batman [Ano 100] e o potencial de trabalhar com uma grande editora, esta dentre as seis maiores do mundo [Holtzbrinck Publishing Group, atual dona da Roaring Book Press] com possibilidade de licenciamento em diversos idiomas ao redor do mundo e a chance de minha publicação sempre estar em circulação, acho que esta foi a decisão mais sábia, especialmente considerando quando o projeto do Kamandi não foi adiante e vim com uma ideia original. São meus personagens. Eu poderia fazer um personagem como o Batman mas ELE é o original. Ele é diferente. Acho que os mais jovens estão procurando por isso porque eles já têm o Capitão América, Star Wars, Mickey Mouse… todos estes hoje são da Disney. Então eles precisam de coisas novas. Hora de Aventura é este sucesso porque é novo.

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Página interna de Bom de Briga (Companhia das Letras, 2014)

Em uma entrevista ao Omelete durante a Comic Con Experience de 2016, você disse que só recentemente estava descobrindo novas HQs graças a todos esses anos dedicados a esta graphic novel. Qual foi a última grande HQ que você descobriu?

Acabei de comprar aqui uma HQ muito perturbadora chamada Psico Sour [de Ronaldo Bressane e Adams Carvalho]. É uma história muito pornográfica e violenta, mas que prende muito sua atenção por ser poderosa. Esta é literalmente a última HQ que comprei. O Daniel Semanas [que estava presente na cafeteria durante a entrevista] também acho que é um talento muito promissor. Gosto também do Bruno Seelig, que visitei esta semana. [Rafael] Coutinho também gosto muito. Acho que aqui no Brasil há muitos artistas talentosos. Essa uma das razões porque estou investindo tempo aqui além de ter amizade com artistas como Rafael Grampá, Fabio Moon e Gabriel Bá. Estou interessado em conhecer mais artistas aqui porque acho que têm uma cultura e abordagem diferente de fazer quadrinhos. Não me sinto tão à vontade, por exemplo, comparado aos quadrinistas independentes dos Estados Unidos e Canadá, apesar de por lá conseguir trabalhar sem problemas no mainstream.

Você planeja falar sobre este sincretismo da sua arte com a forma que fazemos quadrinhos aqui durante a sua Masterclass no b_arco*?

Espero que sim. Pretendo focar em compartilhar ideias fundamentais sobre como desenvolver um estilo. Quando eu estava na Escola de Artes sempre tínhamos críticas sobre pintar e até passávamos o dia debatendo ideias de como fazer e entregar esse método de trabalho. Acho que essa é a coisa mais importante para alguém: Esse senso de processo pessoal. De você saber como desenvolver, produzir e sobreviver nos quadrinhos, design, Graphic Novels ou mesmo enquanto se administra [estas artes] com outro trabalho. Tudo que pode te ajudar a se tornar melhor no que faz penso que é importante. Até de forma comercial, talvez.

Para finalizar, uma bem rápida: O que você acha que precisa ser feito para, igual sua mensagem ao fim da história Teenage Sidekick, fazer as pessoas lerem mais quadrinhos?

Pessoas precisam continuar fazendo material surpreendente e recompensador [de ser lido]. Continuar inventando. Eu estou tentando o meu melhor, Bom de Briga é novo e chegou ao topo dos mais vendidos  do New York Times em sua categoria, é publicado em vários idiomas, possui contrato para a produção de um longa-metragem que está em desenvolvimento pela Paramount, há uma linha de brinquedos a serem lançados em breve… há muita energia em volta de Bom de Briga. Novos desafios necessitam mais tempo e concentração nas novas áreas da franquia, mas no fim das contas estou escrevendo e desenhando uma história original então procuro balancear todos estes elementos.

*Nota: A entrevista foi concedida na véspera da Masterclass  na escola de artes b_arco, ocorrida em 27 de abril de 2017.

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Séries

Agents of S.H.I.E.L.D | Chloe Bennet fala sobre os novos rumos de sua personagem

No episódio The Team, de Agents of S.H.I.E.L.D, exibido ontem à noite, 19 de abril, Hive (Brett Dalton) finalmente colocou seus tentáculos sobre um dos membros da agência. Com a ajuda dos Guerreiros SecretosDaisy Johnson (Chloe Bennet) invadiu a base militar da Hydra para libertar sua equipe e o Diretor Coulson (Clark Gregg). Aproveitando a oportunidade, Hive contra-atacou. Infectada e sob as ordens do perigoso inumano, Daisy retorna à sede da S.H.I.E.L.D para causar o caos para seus amigos. Ela mata Gideon Malick (Powers Boothe) e usa Lincoln (Luke Mitchell) como escape.

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Em entrevista à CBR News, a atriz Chloe Bennet, que está na série desde o capítulo inicial, analisou sua experiência como uma das servas de Hive, revelando o desafio que isso representou e como isso afetará sua personagem no futuro. Ela também contou sobre os laços de Hive com Daisy e como sua traição terá impacto no relacionamento dela com Lincoln. Chloe deu pistas de como Capitão América: Guerra Civil vai influenciar a série.

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Como foi virar uma pessoa do mal?

Chloe Bennet: “Isso foi horrível! Eu tive realmente um momento difícil com esse fato. Estou com essa personagem… Tenho interpretado ela nos últimos três anos. Depois desse tempo, você começa a sentir o que ela sente e quem você é. Passei a ficar muito próxima da Daisy, quando passo a interpretar ela. Quando ela faz algo ruim, é muito complicado racionalizar aquilo, especialmente quando é algo semelhante a reviravolta dessa semana. A Daisy está basicamente sendo forçada a agir sob algum tipo de droga. É algo muito difícil e complicado para eu interpretar. Eventualmente, ao longo do tempo, já comecei a achar divertido. No começo foi bem confuso. Mexeu muito comigo essa revelação. A pior parte foi ter que jogar a culpa no Lincoln”.

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A grande revelação desse episódio é comparável ao segredo de Ward ser um membro da Hydra na primeira temporada. Qual foi a sua reação ao descobrir que Daisy era a pessoal que tinha sido infectada por Hive?

“Eu fiquei muito surpresa. O quê? Quando estarei voltando? Eu voltarei? Serei uma vilã para sempre? Procurei me informar com os roteiristas dos planos para essa remexida na personagem. Então, comecei a pesquisar sobre como as pessoas que praticam heroísmo sentem, e qual seria o próximo nível de emoções. Isso é obviamente um assunto relevante, porque todo mundo lida com algum tipo de mudança de algum jeito ou outro. Algumas são mais extremas, mas é um diferente tom de interpretação. É um nível diverso de atuar com a personagem. Ela precisa demonstrar essa variação. Existem níveis de dopamina atravessando seu cérebro, e fazendo ela sentir-se realmente bem com aquela maldade, e ao mesmo tempo, ela é ainda a Daisy. Isso foi realmente muito, muito desafiador de interpretar. Foi realmente difícil”.

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No momento, nós sabemos que Hive retém as memórias das pessoas que ele ocupa. É possível que ele tenha algumas inclinações românticas com a Daisy, da mesma forma que mantinha uma intriga contra Gideon Malick?

Eu penso que sim. Deve existir uma parte dele que é conectado à ela. Obviamente, a Daisy é uma inumana muito poderosa, e suas habilidades são muito importante para o Hive. Existe nele diferentes níveis. Ele retém as memórias de seus compartimentos anteriores, mas ainda é incrivelmente poderoso. Dessa forma, não penso que ele deixará que os sentidos das pessoas que ocupou, fiquem no caminho de seus verdadeiros objetivos“.

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Falando de Gideon Malick, Daisy matou ele de uma forma muito brutal. Aquilo foi tudo obra de Hive, ou tinha um pouco da Daisy ali, também?

“Eu não penso como uma ação dele, necessariamente. Obviamente, a Daisy não teria feito isso, se não estivesse sob controle. Mas, quero dizer que agora nós sabemos de até onde ela pode chegar. Quando as morais das pessoas são retiradas de suas consciências, é interessante ver o tipo de pessoa que ela é e quão poderosa realmente se tornou. é um tipo de brutalidade. Mas não penso que ela ficou necessariamente mal com isso, porque Malick não era um dos caras bonzinhos. Foi complicado fazer os poderes. Estava me sentindo com vontade de pedir desculpas para ele por fazer aquilo”.

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Você pode falar como essa virada de acontecimentos irá impactar no relacionamento da Daisy com o Lincoln?

“Nunca mais será o mesmo. Posso dizer isso”.

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Capitão América: O Soldado Invernal fez profundas mudanças no seriado, mas Vingadores: Era de Ultron não teve tanta influência assim. Guerra Civil terá um grande impacto para a série?

“Isso é interessante, porque estamos lidando com problemas. Nós temos basicamente uma guerra civil interna em nossa série no momento. Isso está esquentando. Existe uma tensão entre LincolnDaisy; cujos temas o filme obviamente toca de uma forma radical. Há coisas causando conflitos no nosso mundo. Daisy é uma inumana, tem poderes e é uma agente da S.H.I.E.L.D. Eu penso que é exatamente o que eles estão lidando no filme. A série vai abordar esse tema por um tempo. Isso irá impactar a série. Nós já estamos tocando nisso com todos os interessantes e relevantes aspectos desse problema. Pode o governo dizer a um grupo de pessoas, que não fazem parte dele, o que eles podem ou não fazer? A partir dessa pergunta podemos construir uma narrativa e como a resposta dela trará consequências. É um questionamento muito difícil. Eu não estou confiante que exista uma saída correta ou errada para ela. Existem ali argumentos coerentes para ambos os lados”.

Estrelando Clark Gregg, Chloe BennetMing-Na Wen, Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D vai ao ar todas as terças-feiras, às 22 horas, horário de Brasília, na ABC. O próximo episódio será chamado de The Singularity.

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